Passos Coelho a “talhar caminho”?

O desligamento de Passos Coelho com Montenegro foi evidente. Quer pela postura e comportamento corporal dos próprios, quer pela declaração tida pelo ex-1.º Ministro. A intervenção de Passos Coelho deve ser projetada para um futuro que vai para além do dia 10 de Março. Primeiro, justificou, de uma forma longa, a sua presença naquele comício. Num exercício de retribuir o apoio que Luís Montenegro lhe deu quando foi 1.º Ministro. Ou seja, o mesmo significará dizer que "como me apoiaste, eu venho retribuir esse apoio". Alongou ainda mais esses agradecimentos a Miguel Pinto Luz, por este ter sido o seu diretor de campanha e, por isso, estar no Algarve para apoiá-lo como cabeça de lista nesse círculo eleitoral. Com esta primeira parte do discurso, Passos Coelho quis demonstrar que, independentemente de estar de acordo ou não com a visão da AD, não poderia deixar de estar presente. Outro ponto relevante foi o facto do mesmo referir que está completamente convicto de que a AD vai vencer as eleições, pois não se espera que o PS após 8 anos de governação as vença. Ora se tal não acontecer, Passos Coelho poderá apresentar a sua candidatura ao partido e exigir a demissão de Montenegro, com o argumento do PSD não conseguir ganhar as eleições "mais fáceis" de vencer. Pelo meio, veio uma intervenção sobre o controlo da imigração, associada a uma suposta insegurança em Portugal. Sobre isso, relembrou uma intervenção sua em 2017, no Pontal. O curioso é que essa intervenção vem sido replicada nas redes sociais por eleitores e representantes do CHEGA, não sendo de agora que o fazem. Essa intervenção foi várias vezes publicada, ainda antes da marcação de novas eleições. É estranho que Passos Coelho o tenha dito agora, num momento crucial para o país? Não, não é. Por um lado quer atrair eleitorado do CHEGA, por outro, está abrir caminho para um futuro entendimento com André Ventura. Ou seja, já consolida um pretexto para afirmar haver pontos comuns nas políticas que o CHEGA e o PSD apresentam. Outro sinal forte desse desligamento com o atual líder, foi na parte final do seu discurso, onde Passos Coelho não referiu o nome de Luís Montenegro. Ao invés de dizer "Força Montenegro!" preferiu dizer "um abraço a todos, boa campanha, grandes eleições, grande oportunidade para Portugal". Aliás, o nome de Luís Montenegro pouco foi referido na sua intervenção. Todos estes sinais são indicadores de uma relação pouco amistosa entre ambos, que se substituiu por um dever de presença e um aproveitamento para "talhar caminho", por parte de Passos Coelho, caso a AD não vença as eleições. Será caso para dizer que André Ventura tinha razão, quando disse que tinha garantias de que só com o CHEGA é que a direita poderá governar? Se a AD perder, o PSD elegerá um novo líder que não se comprometeu com um "não" ao CHEGA. Se a AD vencer sem maioria e o PS reprovar o Orçamento de Estado para 2025, cenário que Pedro Nuno Santos equaciona (não se confunde com a viabilização do Governo), a posição de Montenegro volta a estar em causa com uma possível marcação de eleições antecipadas, excepto se alcançar um acordo com o CHEGA. Se Luís Montenegro depender do CHEGA para continuar a governar, através da aprovação do OE 2025, o provável é demitir-se. Num ou noutro cenário, Pedro Passos Coelho poderá ressurgir e estas declarações não o vão hipotecar de se candidatar novamente à Presidência do PSD e, posteriormente, coligar-se com o CHEGA.
